Leitura criativa: Análise da produção

Carmen Lúcia Hussein

A instrução e o material utilizado nas escolas americanas tendem a focalizar mais a memorização de fatos, a reprodução e o questionamento literal em sala de aula ou questões que usam processos cognitivos de baixo nível (Applegate, Quinn e Applegate, 2002; Csikszentmihalyi, 1996; McGregor, 2002). Também essa tendência parece ocorrer no Brasil. (Hussein, 1999; Oliveira e Alencar, 2010).

Labuda (1985) afirma que poucos estudos são encontrados na literatura de área em leitura criativa por causa da complexidade desse comportamento.

É uma tarefa difícil definir a leitura criativa. Encontram-se algumas tendências na conceituação dessa habilidade e elas têm sido definidas diferentemente por diversos autores. (Hussein, 2008)

Alguns definem a leitura criativa com base em Guilford (1956). Assim, Torrance (1965) considera que um aluno lê criativamente quando é sensível a problemas e possibilidades do texto que lê. Ele se torna consciente não só das lacunas no seu conhecimento, mas também dos problemas não resolvidos, percebe os elementos que estão faltando e as coisas que são incompletas ou fora de foco. Esse autor continua dizendo que para resolver essa tensão o leitor criativo vê as novas relações, cria novas combinações, sintetiza elementos relativamente não relacionados num todo coerente, redefine ou descobre novos usos para certos trechos das informações e constrói o que é conhecido.

Smith (1975) aponta que a leitura criativa pode ser ensinada melhor através do uso de questões. Ele a define baseando-se na taxionomia de objetivos educacionais, de Bloom (1997), usando o nível cognitivo de síntese. Aplicado à leitura, isso significa que as ideias adquiridas da leitura de um texto são combinadas com outras informações obtidas formando um produto, padrão ou estrutura nova.

Alguns autores, usando as proposições de Bloom, utilizam mais o nível cognitivo de aplicação para definir a leitura criativa. Desse modo, Labuda (1985) considera que o leitor criativo tem maior habilidade em examinar as relações entre os fatos, interpretá-los e aplicá-los à vida real.

Ainda, encontram-se na literatura de área alguns trabalhos brasileiros usando a operacionalização do conceito de criatividade textual. Por exemplo, Hussein (1999, 2008) registrou e categorizou as respostas textuais criativas de alunos da 5ª série e universitários a questões divergentes, propondo uma definição de leitura criativa. Ela é a leitura que vai além do texto, propondo base de relações com outros textos e com a vida do próprio leitor, bem como soluções e proposições diversas, quer em apoio ao autor, quer dele se diferenciando em nível de oposição, porém mantendo o nível de adequação da resposta. As características da criatividade usadas na análise das respostas dos leitores foram: fluência, flexibilidade e originalidade.

Encontram-se alguns trabalhos na área, como o de McGregor (2002), com universitários indicando que os alunos melhoraram com o treino de criatividade textual; o de Grigorenko, Jarvin, Ian e Sternberg (2008), que testaram questões criativas com jovens, desenvolvendo uma escala de proficiência em criatividade, que pode ser ensinada em cada nível de ensino, podendo também ser usada para a avaliação dessa habilidade. Também há as pesquisas com crianças de 5ª série (Hussein, 2008) e universitários (Hussein,1999; Sampaio, 1983), que, ao usarem questões criativas e audiência da professora, demonstraram a eficiência do treino desse comportamento.

A leitura criativa é uma área relativamente nova na pesquisa científica, sendo tratada por especialistas de várias ciências, como psicólogos, pedagogos, especialistas de comunicação e filósofos (Hussein, 2008; Labuda, 1985). É preciso analisar a produção científica nessa subárea, já que há ainda carência de pesquisas nessa habilidade.

São importantes os trabalhos sobre avaliação científica, porque dão diretrizes das contribuições e carências nas diversas áreas de conhecimento. Os produtos mais relevantes para o desenvolvimento da ciência são os textos. Fazem-se necessárias as pesquisas de metaciência em áreas importantes e de grande interesse para a evolução do próprio conhecimento (Witter,1999).

Certamente, é pela análise metacientífica da produção científica que se pode visualizar a amplitude do conhecimento obtido, as tendências do que necessita ser analisado, e, como se verifica no trabalho de Oliveira (1999), pode-se avaliar o que, o como e em que nível se está produzindo e outras questões similares, incluindo o saber – fazer – poder, ou seja, a ciência focalizando a leitura criativa.

Hussein (2014) analisou a produção científica em ensino de leitura criativa em todos os níveis de escolaridade. A avaliação focou: títulos, participantes, tipo de trabalho e temas. Foram avaliados 30 trabalhos localizados na base de dados PsychINFO (2002 / 2009). Os resultados mostraram que os títulos seguem os critérios do discurso científico; há um predomínio significante em usar Criança-Ensino Fundamental como participante; não há diferença entre trabalhos teóricos e pesquisa; é uma subárea com poucos estudos, havendo dispersão de dados em relação a tipos de participantes, temas e tipos de pesquisa.

É relevante e necessária a análise da produção científica em leitura criativa nos estudos de metaciência. Mas é uma subárea com poucas pesquisas, apesar de ser enfatizada como importante pelos educadores. Também é necessária uma avaliação científica da produção da leitura criativa nas bases de dados bibliográficos para verificar como esta subárea vem evoluindo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Csikszentmihalyi, M. (1996). Creativity: flow and the psychology of discovery and invention. New York: Harper Perennial.
Grigorenko, E. L. , Jarvin, L., Ian, M e, Sternberg, R. J. (2008). Something new in the garden: Assessing creativity in academic domains. Psychology Science, 50 ( 2 ), 295- 307.
Guilford, J. P. (1956). Structure of Intellect. Psychological Bulletin, 53,3-10.
Hussein, C. L.(1999). Teste de procedimento de treino e generalização de leitura crítica e criativa : um estudo experimental com universitários. Revista do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica. 16 ( 2 ), 16-27.
Hussein, C. L.(2008 Leitura Crítica e. Leitura Criativa :Ensino e Aprendizagem. Rio de Janeiro : CBJE.
Labuda, M. (1985). Creative Reading for gifted learners- a design for excellence. Delaware: International Reading Association.
McGregor, G. (2002).Creative thinking instruction for a college study skills program: A case study. Dissertation Abstracts International – Section A- 3293.
Oliveira, M. H.M. (1999). Leitura e escrita: Análise da produção com ênfase no universitário. Tese de doutorado, Pontifícia Universidade Católica de Campinas,Campinas.
Oliveira, L. L. E. e Alencar, E. M. L. S. (2010). Criatividade e escola: limites e possibilidades segundo gestores e orientadores educacionais. Psicologia Escolar e Educacional, 14 ( 2 ), 245- 260.
Sampaio, S. T. (1983). Teste de procedimento para treino em Leitura Crítica e Criativa : um estudo experimental com universitários. Dissertação de Mestrado - , Universidade Federal da Paraíba,João Pessoa,Paraíba..
Smith, R. J. (1975). Using reading to stimulate creative thinking in the intermediate grades. In M. Labuda. Creative Reading for gifted learners a design for excellence.(pp.70-85 )Newark, Delawere: I. R. A.
Torrance, E. P. (1965) . Gifted children in the classroom. New York: Macmillan.
Witter, G. P. (1999). Leitura: Textos e pesquisas. Campinas : Alínea Editora.