Análise da produção sobre Leitura crítica

Carmen Lúcia Hussein

Educadores endossaram o que Dewey (1933) descreveu como o objetivo central de aprendizagem o pensamento. Assim propôs a necessidade na educação de se desenvolverem habilidades complexas dos alunos, como a de pensamento crítico, para formar o cidadão e atender ao mundo do trabalho (Nummedal e Halpern, 1995).

Nos últimos quarenta anos, o trabalho de psicologia cognitiva e seu desenvolvimento têm ajudado a clarificar o modo como o homem pensa e como o seu pensamento se desenvolve (Nummedal e Halpern, 1995).

O conceito de Tierney, Soter, Flahavan e McGinley (1998) e Gray (1993) é que a Leitura Crítica possibilita julgar as bases do pensamento ou, como afirma Dewey, manter o estado de dúvida ou inquérito sistemático e prolongado.

Wade (1995) e Allegretti e Frederick (1995) apontam algumas habilidades envolvidas no pensamento crítico: a) formular questões, b) avaliar os argumentos, c) examinar evidências, d) analisar pressupostos e vieses, e) evitar super simplificação e falácias.

Alguns autores, usando as categorias de Bloom (1997) definem a Leitura Crítica como focalizada no nível cognitivo de avaliação. Já Gray (1993) define o pensamento crítico em face de textos como a habilidade de avaliar os argumentos do texto pelos alunos.

Outros autores (Beers, 1986 e Ennis, 1993) usando as categorias de Bloom, definem a Leitura Crítica como uma aplicação do pensamento crítico ou como aproximadamente relacionada ao pensamento crítico.

Assim, a leitura crítica tem sido classificada em vários estudos como aplicação do pensamento crítico em face de textos. Além disso, as habilidades de pensamento crítico descritas nos textos dessa área são semelhantes às habilidades em textos de Leitura Crítica (Douglas, 2000). Dessa forma, no presente estudo, considerou-se o pensamento crítico em face de textos e Leitura Crítica como sinônimos.

Hussein (2008) define a Leitura Crítica como a habilidade da criança em verificar a adequação dos “fatos imaginativos” apresentados pelo texto em relação ao seu repertório de experiências passadas. Essa autora utilizou o Teste de Criticidade Textual com as seguintes categorias: Justificativa Textual, Justificativa baseada nas experiências e Elaboração.

Assim, encontram-se na literatura de área alguns trabalhos como os de Al´Shara´h e Mohammad (2004); os de Okibayashi (2004) que verificaram o efeito do treino de Leitura Crítica nessa habilidade. Em nosso meio acham-se pesquisas de Hussein (2008) com crianças de 5ª série; os de Hussein (1999, 2008, 2009) e Sampaio (1983) com alunos universitários e de pós- graduação usando questões e audiência da professora demonstrando a eficiência do treino de Leitura Crítica.

Fehring e Green (2001) afirmam que leitura crítica, como tal, emergiu no final dos anos oitenta mas já no começo da década seguinte teve uma grande expansão, sendo que novas dimensões e práticas têm surgido. Para desenvolver a leitura crítica deve-se cuidar deste aspecto desde o início da aquisição deste comportamento. Há hoje uma ampla variedade de tecnologias, estratégias e materiais para desenvolver esta competência. Todavia há ainda carência de evidências. Além disso, mesmo contando com evidências em outros países, é preciso pesquisar e reavaliar a eficiência no meio brasileiro.

A leitura crítica é uma área relativamente recente de pesquisa científica e que tem merecido a atenção de vários especialistas de várias ciências: psicólogos, pedagogos, matemáticos e filósofos (Carnielli e Epstein, 2010). Como as demais áreas de conhecimento, é preciso analisar a produção gerada nessa subárea.

São relevantes estudos sobre produção científica, porque dão um mapeamento das contribuições, necessidades e déficits nas diversas áreas de conhecimento. São os textos os produtos que apresentam maior relevância para o evoluir do conhecimento. A pesquisa de metaciência, especialmente em áreas relevantes e de grande interesse para o evoluir do próprio conhecimento, se faz necessária (Piasta e Wagner, 2010).

É pela análise metacientífica desta produção, que pode avaliar a profundidade e a amplitude do conhecimento disponível, ter uma perspectiva das tendências, do que precisa ser pesquisado, do como, do que, do quem, do porquê e outras questões similares abrangendo o saber-fazer-poder ciência enfocando a leitura crítica.

Hussein (2011) arrolou os dados no PsychINFO (2002/2008) em relação ao verbete “Ensino e aprendizagem da Leitura Crítica” A análise do material mostrou que os títulos estão de acordo com as regras do discurso científico; há um predomínio de trabalhos teóricos com relação ao de pesquisas; é uma subárea carente de pesquisa, havendo uma dispersão de dados em relação a tipos de participantes, temas e tipos de pesquisa.

A avaliação científica em Leitura Crítica em estudos de metaciência é importante e necessária. Apesar de essa área ser enfatizada pelos educadores, ela é carente de pesquisas e também requer uma avaliação científica da sua produção nas bases dos dados.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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