Ensino de Leitura e redação de poesia para escolares
Ensino de Leitura e redação de poesia para escolares

1. Introdução

A leitura criativa é aquela que vai além do texto, propondo base de relações com outros textos e com a vida do próprio leitor, bem como soluções e proposições diversas, quer em apoio ao autor, quer dele se diferenciando em nível de oposição, porém mantendo o nível de adequação da resposta. As características da criatividade usadas na análise das respostas dos leitores foram: fluência, flexibilidade e originalidade. (Hussein, 2008).

Bampi (1995) afirma que “a leitura e a redação criativa envolvem uma tentativa deliberada do leitor de ir além da informação, uma procura de novas ideias e um tratamento produtivo destas. Ela conclui que os alunos criativos usam mais o significado do pensamento divergente do que o convergente. Este último envolve o uso de leitura e redação criativa para obter significados dos fatos e sua correção, enquanto que a produção divergente implica em algumas possíveis respostas - em que não existe resposta correta - e seus critérios de medidas são: originalidade, novidade e imaginação das respostas dadas ao texto e à escrita.”

Encontrou-se o predomínio dos temas de leitura seguida de escrita criativa mais do que temas sobre a leitura criativa, num levantamento bibliográfico no PsichInfo (2002/2009) realizado por Hussein (2014). O que justifica essa tendência encontrada é a conclusão de Labuda (1985) ao afirmar que “a leitura criativa e a escrita criativa podem não ser habilidades separadas”. Este mesmo autor conclui que “em alguns programas inovadores, a escrita criativa é apresentada como correlacionada à leitura criativa”. Assim, Groeben (2001) considera que “a leitura produz estímulos para a criação e que a escrita criativa é produção subsequente”. Este quadro evidencia a necessidade de maior esclarecimento dessas habilidades.

O ensino de redação criativa de poesia é uma habilidade mais específica da redação criativa, que segue em seu ensino os mesmos princípios orientadores da redação criativa. Serão feitas a seguir, considerações a respeito destas pautas gerais de ensino.

2. Estratégias de ensino de leitura e escrita criativa

Alguns critérios foram propostos por autores para o ensino de redação criativa para escolares. Seguem abaixo algumas pautas gerais que orientam este estudo.

Sugestões são dadas por Condermarin e Chadwick (1987) que recomendam critérios para serem usados no ensino de redação criativa para escolares: 1)Enfatizar o produto e não o processo; 2) Criar uma atmosfera em que as crianças sintam-se livres para expressar-se abertamente.3) Os seus esforços devem ser aprovados; 4) é importante manter uma atitude positiva em relação ao trabalho dos alunos;5)Permitir e incentivar que as crianças compartilhem seus escritos com outros companheiros;6)Cada expressão escrita é individual. Não esperar que elas utilizem o mesmo estilo;7)Apresentar tópicos abertos para dar aos alunos a liberdade necessária para criar;8)Dar uma variedade de atividades de escrita para estimular a imaginação e a criatividade;9)Praticar a escrita e comunicar-se com frequência com os colegas;10)E também que os escolares fiquem motivados para escrever através da participação como autores e escritores.

O uso de algumas estratégias de ensino de redação criativa foi proposto. Torrance e Salfter (1990) defendem o uso delas em três momentos: o antes, o durante e o depois de qualquer tarefa descrita no ensino de leitura e redação criativa:
  • 1) Estágio 1 – Deve-se aumentar a antecipação e expectativa, no sentido de preparação para a aprendizagem, criando-se o desejo de aprender e aumentando a curiosidade dos alunos;
  • 2) Estágio 2 – Aprofundar as expectativas e o conhecimento, aumentando a preocupação com o problema;
  • 3) Estágio 3 – Para que ocorra e continue ocorrendo o pensamento criativo, devem ser oferecidas amplas oportunidades para que as informações não sejam absolutas, fechadas, mas que sejam divergentes e apresentem várias possibilidades.

    A seguir, serão feitas, considerações a respeito da poesia e seu ensino, para realizar reflexões sobre se este ensino seguiria os mesmos princípios orientadores da redação criativa.

    3. Ensino de redação criativa em poesia para escolares

    Algumas considerações pela poetisa Cecília Meireles sobre a literatura e criação artística (apud Rilke .1984).são feitas como as respostas de Rilke não oferecem uma receita literária, embora digam coisas essenciais sobre o exercício da literatura: E diz também que vão mais longe: tratam da formação humana, base de toda criação artística.

    Assim, pode-se acrescentar que para formar a poeta, a educação dada pelos pais e as escolas deveria levar a criança e o jovem a apreciar o belo e a poesia no cotidiano.Além disso, o jovem poeta deveria cultivar a apreciação do belo, da harmonia, do simples e do profundo na existência, para expressá-los nos seus poemas.

    Condemarin e Chadwick (1987) afirmam que a redação de poesia é uma modalidade da escrita criativa, que é resultado de fantasia, habilidade esta que pode ser estimulada com propostas aplicadas à escrita. Ela é um dos melhores meios para estimular os processos de pensamento, imaginação e divergência. Propõem que ao ensinar a escrita criativa, os professores devem levar em conta certas pautas gerais para ajudar as crianças no desenvolvimento dela.

    O uso da poesia para o ensino da poesia foi enfatizado por Bragotto (1994), que afirmou que o uso de poesia é uma forma de enriquecimento ao currículo, utilizando poesias para inspirar respostas poéticas. Neste sentido, esta autora também confirma o uso de poesia como meio de elevar a criatividade e a motivação no estudo de português por adolescentes. As propostas de trabalho com o uso de poesia são formas de iniciar um trabalho de escrita criativa que os estudantes gostam muito. O poema toca nos sentimentos e, sendo assim, é uma estratégia para pensar sobre os seus próprios sentimentos, gerando ideias que podem ser expressas através da escrita de poemas.

    O trabalho acima citado utilizou o uso de poesia no ensino desta habilidade e teve por objetivos incentivar a expressão de poesia quer na sua produção como na sua qualidade poética. Assim, esta autora aplicou um programa para o desenvolvimento da expressão poética em adolescentes e um programa de orientação às professoras de Português. A amostra foi composta por 30 alunos da 6ª série do 1º grau de escola pública e duas professoras de Português. Os resultados obtidos demonstraram que houve aumento significante da criatividade verbal, das características criativas da personalidade, da atitude positiva frente à poesia e da expressão poética, através do contato e exercícios com poemas, entre os alunos do grupo experimental em relação ao grupo de controle. Os dados sugerem também que o programa de ensino incentivou um aumento da motivação dos estudantes e professores na análise qualitativa. E que não houve melhoria significante na qualidade poética na escrita de poemas para ambos os grupos.

    Pode-se dizer que a partir desta pesquisa haveria necessidade de programas de ensino mais longos para esclarecer os dados encontrados acima. Também esses resultados sugerem as questões: é possível ensinar a poesia?. É possível ensinar a beleza, a harmonia, a simplicidade, a delicadeza e as questões mais profundas da vida? E pode-se afirmar que os efeitos do uso de poesias para incentivar a expressão e a qualidade poética devem ser mais estudados e as suas características, melhor definidas.

    Assim, pode-se dizer que os critérios apontados no ensino de redação criativa poderiam ser usados para o incentivo de expressão poética. Desse modo, o estudo acima usou, numa fase inicial, as estratégias da redação criativa, seguida por uma fase posterior de ensino de redação de poesia para a expressão poética. Evidenciou-se que o uso destas estratégias, no início, facilitou a expressão poética.

    Encontraram-se poucas pesquisas sobre o ensino e a aprendizagem de poesia no exterior e no meio brasileiro, o que indica a necessidade de mais trabalhos a respeito deste tema. Isso parece, também, evidenciar a carência de estudos quanto ao ensino da forma e do conteúdo ou qualidade desta habilidade. Possivelmente, o ensino de forma na poesia seja mais simples do que o ensino de qualidade poética, que parece enfatizar a beleza, a harmonia, a simplicidade, a delicadeza e as questões mais profundas da vida, que parecem ser mais complexas, quer na avaliação da poesia como no seu ensino. O poema expressa valores e visão pessoal de si próprio e do mundo, como os sentimentos, meditações e concepções de vida, como as características acima apontadas da qualidade poética, que parecem difíceis de ser definidos

    Finalmente, elaborar considerações sobre esta área é uma tarefa difícil e complexa. Encontrou-se, porém, a carência de pesquisas sobre o ensino de poesia, o que evidencia que precisa de trabalhos posteriores sobre o tema, elaborados por aqueles que gostam do ensino de literatura e o apreciam.

    Referências Bibliográficas
    Bampi M. L. F. (1995). Efeitos de um Programa para desenvolvimento da criatividade na escrita. Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas.
    Bragotto, D. (1994). Programa Experimental para o Desenvolvimento da Expressão Poética em Adolescentes. Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas.
    Condemarin, M. e Chadwick, M. (1987). A escrita criativa e formal. Porto Alegre: Artes
    Hussein, C. L. (2008). Leitura Crítica e Leitura Criativa: Ensino e Aprendizagem. Rio de Janeiro: CBJE.
    Hussein(2017). Reflexões sobre a criatividade sobre o ensino de redação de poesia para escolares. Será publicado na Revista de Psicopedagogia em julho de 2017
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